Varal fotográfico do FOCA

O fim do ano de 2013 e meados de 2014 foi bastante gostoso de ser vivido em termos fotográficos. Fundávamos o FOCA – o Fotoclube Aldeense. 1º Fotoclube da cidade de São Pedro da Aldeia, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro. Iniciativa que teve como membros fundadores, além de mim, os parceiros Júnior Silgueiro, Isabel Cristina e Gilberto Costa.

O Fotoclube acabou mais bem relacionado em sua página do Facebook, que contava com entusiastas de outras partes do Brasil, do que na própria cidade. Mas teve por aqui seus momentos de glória e bastante aprendizado.

Podemos ver isso de maneira bastante clara nos vídeos abaixo. Os varais fotográficos do FOCA, realizados no Fabão Drinks, eram sucesso de público e venda. Tanto para os fotógrafos quanto para o bar! Com muita música e alegria, a fotografia se tornava o objetivo principal na noite de um pub, de uma cidade.

Hoje sou professor de fotografia do Instituto SER de Qualificação em Cabo Frio e bastante coisa mudou – pra melhor!

Deixo aqui essa lembrança e ouso dizer que em breve, muito em breve, teremos outro varal fotográfico feito nesses moldes que podem conferir abaixo. Não em nome do FOCA, infelizmente só uma lembrança hoje. Mas em nome da CULTURA FOTOGRÁFICA.

1º Varal Fotográfico do FOCA

2º Varal fotográfico do FOCA

Quando fotografar virar obrigação, acabou

Não faz muito tempo escrevi o texto Não seja morto pelo profissional da fotografia. Nele a ideia central era alertar para que ao entrar no mercado de trabalho, o fotógrafo não seja dessensibilizado pela necessidade de produção e perca o encanto e o prazer de fazer fotos pela arte, sem ter que explicar o porquê de tal imagem sempre.

Hoje venho abordar algo parecido, faz margem com o texto acima.

Como professor, me deparo com certas nuances dentro de sala que, se não me impressionam, me colocam em reflexão, o que é bom.

O curso de fotografia não faz parte do currículo escolar comum. Pelo menos não da maioria das escolas. Bem, posso crer então que se alguém se matricula em um curso de fotografia é porque gosta de fotografia, tem curiosidade pelo menos, quer ver qual é, como se diz no popular. É certo que muitas ilusões são quebradas nesse ínterim. Descobriremos ali que a fotografia além de sua delícia também tem sua “dor”. A já batida frase “não é só apertar um botão” tomará todo sentido frente a uma matemática elementar, mas presente. Não só ela mas, noções de arte (quando não um aprofundamento), luz e sua física peculiar, etc. Evidentemente, o conteúdo é recheado de aulas práticas para que a teoria seja aplicada e não fiquemos desmotivados com esse montante de informação que virá diluída em 13 meses de curso, no caso do Instituto onde dou aula. Não há aprendizado fotográfico sem prática.

Sempre faço o paralelo com aprender a dirigir ou tocar um instrumento. Começamos a autoescola e em pouco tempo, ao lado do instrutor já estamos fazendo o carro andar. Hiper inseguros, temos a sensação de que aquilo é quase impossível e se bobearmos na reflexão, não nos daremos conta de que milhões de pessoas dirigem e isso por si só já denota que impossível não é. O quanto você vai dirigir bem ou mal depende do quanto se implicará no ofício. Fato é que, depois de um tempo dirigindo, já não fazemos mais tanta conta para passar a marcha ou resolver que pedal tá na hora de apertar. Aquilo tudo vai se tornando parte de nós e com tempo já podemos até pensar em outras coisas enquanto dirigimos. Aliás, há quem extrapole e faça o que não deve, como falar em rede social enquanto dirige.

Aprender um instrumento musical também requer ficar “em cima” dele. Ir às aulas uma ou duas vezes por semana e só lá tocar, não fará de nós músicos. Requer ir para casa e tocar, treinar escalas, acordes, ajudar os dedos de uma mão a se posicionarem bem no braço da guitarra com a outra, num momento em que nos achamos até meio ridículo, mas que é necessário.

Se estamos em um curso de fotografia, precisamos fotografar. Parece óbvio, mas aprendi que não é. Há sim pessoas que pensam que apenas frequentar, estar de corpo presente em um curso de fotografia transformará sua foto. E como haveria de ser?

A reflexão é igualmente boa para o professor. Será que minhas aulas estão inteligíveis? Consigo fazer minha mensagem chegar? Preciso ensinar termos técnicos, porém tento sempre explicar com palavras simples ou mesmo usar analogias com temas que tenham a ver com as vivências do aluno para que possa compreender o que tal termo quer dizer. explicar mais de uma vez e de maneiras diferentes. Ser professor é estar o tempo todo se reavaliando. Estou o tempo todo procurando a minha falha, não por paranoia, mas por controle de qualidade. E vou falhar. Contudo, que seja cada vez menos.

Porém, não podendo culpar o instrutor da autoescola por eu não sentar no carro para dirigir, insisto – FOTOGRAFE!

Mas o faça com prazer. Utilize-a para relaxar, fazer arte, se descobrir, falar com o mundo, denunciar ou ser feliz. Tente não transformar o ato de fotografar em um castigo. Você não está sendo punido, só faz parte do processo. Aproveite o caminho que te levará à maestria, ele está repleto dos prazeres da descoberta.

É certo que temos dias e dias. Tem dias que, se não for pela obrigação do ofício, não quero pegar na câmera. Estou cansado, preciso de outros estímulos ou coisa que o valha. Tranquilo. Não somos robôs municiados de inteligência artificial. Somos melhores que isso e essa é a razão de precisarmos entrar em contato com conteúdos diferentes. Isso inclusive enriquecerá sua arte, seja ela qual for.

Porém, se você não tem tempo para fotografar mas, tem tempo para facebook, instagram, snapchat, brigar com os outros, ver suas séries do Netflix, dormir tarde fofocando com @s amig@s, fazer pipoca, brigadeiro, passar horas com @ namorad@ ao telefone (por voz ou vídeo), ver um vídeo atrás do outro no youtube ou qualquer outra coisa que  longe de mim taxar de desnecessária, o que você não tem, na verdade, é a fotografia enquanto prioridade. E aí tudo bem também. Acho válido quando descobrimos que aquilo que parecia brilhar, não brilha tanto. Já houve um ganho! Já saberá algo que não sabia. Agora não precisa mais perder tempo com isso, pelo menos não dessa forma. A gente se equivoca também nas nossas escolhas e não precisamos fazer disso mais uma culpa.

Mas se após essa reflexão descobrir que quer sim a fotografia, vamos fazer um plano de estudos e eu enquanto professor estarei aqui de braços abertos para ir contigo trilhar o percurso que precisar para chegar lá. Aliás, vou aproveitar para fazer umas fotos no meio do caminho se não se importar.  😉

 

 

Resultado do exercício do filme de 12 poses

Na semana retrasada falamos sobre o exercício do filme 12 poses. O objetivo era se importar menos com botões, roletas, modos disso ou daquilo e mais com o olhar fotográfico. Importar-se mais com aquilo que inicialmente chamou a atenção para fazer a foto.

Não tem aqui nenhuma cruzada contra técnica fotográfica, mas tão somente um exercício do olhar.

Vou contar como foi para mim.

Achei que eu fosse sentir mais falta de olhar o LCD. Mas não foi o que aconteceu. Verdadeiramente senti-me muito natural em apenas olhar pela ocular e ver a cena à minha frente. Como eu fotografei com uma G12, que tem aquelas antigas oculares que são essencialmente um furo transpassando a câmera, senti que se tivesse com uma DSLR seria mais confortável. Contudo, rolou numa boa .

Eu me senti seguro e sem a necessidade de olhar o resultado a todo momento. Pude esperar “gastar as 12 poses” tranquilamente.

Aqui no post vão alguns desses momentos. O que teve edição, não sofreu corte ou correções de lente. Mexi em cores apenas tentando não alterar muito a realidade do que vi, o que não inclui, evidente, a abstração do preto e branco.

No fim das contas, para mim ficou a certeza de que independente do LCD, já ando buscando a poesia do olhar. O que não me coloca em um lugar finalizado com nada. Não cheguei no fim. Sinto apenas que dou passos na direção correta para quem pretende desenvolver cada vez mais esse lado. Entretanto, continuo achando que posso melhorar mais o olhar, sair muitas vezes de um senso comum, ter olhar mais refinado. Essa é a trilha que sigo.

E você, fez o exercício? Conta aqui como foi.

Não fez? Conta aqui porque não.

O exercício do filme de 12 poses

Semana passada lia sobre uma fotógrafa que decidiu passar um ano fotografando somente com câmeras descartáveis para voltar sua atenção mais à cena do que em configurações técnicas. Queria se reconectar aos motivos que a faziam sacar a máquina para uma foto, estar mais tempo com eles, enquadrar melhor. Então, ela municiou-se de bons filmes (talvez aí, o único ponto de escolha técnica), deixou seu equipamento da última geração digital de lado e começou sua jornada rumo ao olhar.

Segundo ela, após aquele ano, suas fotos estavam mais interessantes e sentia-se pronta a voltar para sua máquina digital. Pelo que entendi, foi uma espécie de desintoxicação tecnológica frente sua arte.

Doze meses pode ser demais para alguns, mas o exercício é válido. Para a maioria de nós, achar câmeras descartáveis não seria tão fácil bem como minilab para revelar essas fotografias. Na região dos lagos do Rio de Janeiro, onde moro, já não há mais. Para quem mora nos grandes centros, pode ser mais fácil. No entanto, podemos fazer esse treino do olhar com nossas câmeras digitais.

Não consigo lembrar de uma câmera moderna que não tenha o botão “disp.” (Display). Ele adiciona informações gradativamente no LCD a medida que o apertamos até que desligue o mesmo e a tela fique preta. Pronto! Não somos mais capazes de olhar a foto pronta. Só temos o visor ótico à nossa disposição, exatamente como nas câmeras de filme. Para quem tem câmeras com LCD articulado, melhor ainda. Simplesmente feche-o.

Vamos para a rua?

Saia de casa para fazer o exercício do filme de doze poses. Sem LCD para revisar, recomendo também que você use a câmera no automático. Sim! Lembre-se, nesse momento não é a questão técnica que está em pauta. Entregue para a sua câmera essa tarefa e concentre-se em compôr melhor e tornar mais interessantes suas imagens.

Eu vou embarcar nessa também e para tal vou usar minha querida companheira G12. Por um simples motivo, minha câmera principal é uma SLT da Sony e esses modelos já não têm OVF (visor ótico) e sim EVF (visor eletrônico) e esse tipo de visor já entrega o resultado na hora de como a foto vai ficar. Aí não vale, né!!

A Canon G12 conta com aqueles antigos visores óticos que são exatamente como em câmeras mais simples, com erro de paralaxe e tudo mais!! Então, vai ser com ela mesma. Possivelmente me entregará a experiência mais próxima de uma câmera simples de filme.

O resultado eu posto aqui em alguns dias e sem edição.

São somente 12 fotos, hein! Não desperdice. Pense bem o quanto vale à pena apertar o botão.

Vamos?

A fotografia e o pescar

Há algum tempo fiz umas pescarias embarcadas com meu pai. Alugávamos uma traineira com um barqueiro experiente e, da praia da Urca no Rio de Janeiro ou Mangaratiba, um pouco mais abaixo no mesmo litoral fluminense, íamos em busca de uns pescados. Enquanto o barco nos levava mar adentro, meu pai pacientemente abria sua mochila, retirava seu estojo repleto de divisórias preenchidas com anzóis, chumbadas, boias, iscas artificiais e tudo mais, começava a fazer uns nós que nunca fui capaz de reproduzir na linha, regulava o caniço juntamente com o molinete, preparava as iscas vivas. Fazia, no fim das contas, artesanato. Duas vezes! Como acabei de dizer, eu era incapaz de fazer algo que fosse além da parte do preparar as iscas vivas.

Nesse processo, certa paz era trazida ao seu semblante. Ele nem falava muito nessa hora. Parecia meditar em cima de nylon e ferro retorcido.

Pescar requer paciência e certo silêncio por dentro, pelo menos. Enquanto o peixe não vem, podemos ir curtindo o visual e seus barulhos. Mas não podemos perder o caniço de vista. A qualquer momento ele pode ganhar uma puxada e se não estivermos à postos, perdemos o peixe. Não pode ser um estresse. Os momentos de peixe são inferiores ao tempo total no mar. Se só pudermos ser felizes e relaxar com o peixe em mãos, pescar se torna um tormento.

Numa de nossas primeiras pescarias eu aguardava o peixe. Sentado de frente para o mar, era hipnotizado pela paisagem. O silêncio reverberava em mim e eu precisava fazer uma foto dele. Peguei a câmera e em pouco tempo um cardume considerável de fotos estava dentro do meu cartão. Fiz fotos que hoje, mais de 10 anos depois, ainda gosto de revisitar. Naquele mesmo barco, pesquei imagens do trabalho do barqueiro. Com paciência, arrematei fotografias de diferentes matizes. Eu estava vivo dentro do barco. Silenciosamente ia aos outros pescadores que embarcaram conosco e prestava-lhes homenagem aos seus momentos de lazer e paz. Sem que se dessem conta, faziam o mesmo por mim.

Fotografar é exatamente como pescar. Àquele que executa, exige concentração, traz paz e brilho nos olhos. Desde os preparativos dos equipamentos, a escolha da lente certa, o carregamento das baterias, os filtros, até o momento que as imagens se apresentam. Tem hora que pegamos pequenos “peixes” que não valem à pena e os lançamos de volta ao mar da fantasia para que tenham tempo de serem reelaborados, reimaginados e voltem em forma de grande imagem. Outras vezes capturamos “peixes” que nos deixam dúvidas acerca de sua grandeza e possivelmente o conjunto final de fotos é quem vai jugar sua relevância e, claro, há os momentos de glória, quando no nosso anzol aparece aquele que será lembrado eternamente. O peixe que traduzirá a pescaria. A foto que contará sozinha toda a história.

Às vezes não vem, e nessas vezes o pescador volta pra casa com coisas menores, porém grandes lembranças do momento de higiene mental.

Nesse dia, meu pai pescou com dois caniços. Eu pesquei com a alma leve e um olho de vidro.

Quando conheci Lee Jeffries

Há poucos anos deparei-me com uma obra inusitada. Figuras estranhas em preenchimento do quadro, preto e branco muito contrastado, nitidez de volume explodindo ressaltando rugas e defeitos, lente (possivelmente) grande angular dando leve distorcida na perspectiva desses retratos. E olhos vívidos! No meio de tanta imperfeição, olhos que reluzem vida e alma. Como se dissessem, “eu moro aqui”.

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Assim se apresentava a mim Lee Jeffries. Não sei de onde é. Imaginei que fosse americano porque vi anunciada em seu Instagram (@leejeffries) uma exposição sua em uma igreja evangélica de Seattle, fato que me permitiu alguma reflexão pessoal. Mas recentemente me encontrei com pequena matéria portuguesa que falava que sua moradia atual é em Manchester, no Reino Unido. Não importa, não fui atrás de sua geobiografia, mas tentei entender o espírito (o Geist como falam os alemães referindo-se ao intelecto) que o guia. Que busca Jeffries? Seria ele um ex morador de rua, drogado? Qual seu interesse com essa gente que cismamos não legitimar sua existência?

Na turma em que me formei na faculdade, um colega de sala, Fabio Almeida, fez sua monografia sobre a população de rua sob a ótica da psicologia. Fez analogia com dito fenômeno poltergeist. Fantasmas. Estão entre nós, mas não os vemos. Jogam bolinhas em sinais nas nossas barbas, mas olhamos em direção contrária, ou mesmo, os atravessamos com o olhar aproveitando-nos de seus corpos imateriais. Anos depois, pensei que poderia ser um bom projeto fotográfico. Mas lá estava Jeffries. Alguém pensou antes e muito melhor que eu poderia fazê-lo.

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Lee Jeffries me lembra Diane Arbus. A fotógrafa norte-americana fez de sua fotografia a exposição de marginalizados de uma sociedade cada vez mais padronizante. Fotografou todo tipo de “desvio” que encontrou. Prostitutas, anões, travestis, gigantes, gente “feia”. Dizia ela, “Acredito sinceramente que existem coisas que ninguém veria, se eu não as tivesse fotografado”. Estava correta. O mudo continua tentando esconder os descontentes e inadequados com seus rumos. Diane suicidou-se em 1971 após diversos episódios de depressão.

Jeffries certamente bebe na fonte de Arbus. São bastante parecidos em suas temáticas. Faz aparecer os fantasmas para aqueles que não os vêem. E os mostra não como completos miseráveis. A miséria está lá sim, é visível e evidente. Mas o mote de seus retratos, na minha percepção, é mostrar vida. Olhos muitas vezes fervilhantes cravados em rostos outras tantas vezes tristes, mas que marcam um lugar no mundo. No mesmo mundo que você e eu. Estão lá, nos observando e capturando sua atenção, nem que seja por alguns segundos. Querendo você, ou não.

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Robôs me dão preguiça

Os automatismos estão invadindo nossa sociedade já há algum tempo. A cada geração, há uma melhora substancial na resposta desses modos. Com a proposta de tornar nossas vidas mais fáceis e fazer com que tenhamos mais tempo livre, a cada dia fazemos mais coisas sem (em tese) precisar fazer mais coisas ainda. Deu pra entender?

O movimento não é nada novo. Desde que resolvemos explorar o mundo as tecnologias foram surgindo e se sobrepondo em busca de garantias de sobrevivência.

Na fotografia não haveria de ser diferente. Desde sua chegada, liberando os pintores de serem retratistas, como na reflexão de Picasso, até o novo speedlight da Canon que escolhe o melhor ângulo da cabeça do flash para você em busca da mais suave luz, os automáticos estão aí.

Longe de mim demonizar as evoluções. Não fossem elas, nem fotografia faríamos! Na minha geração, todo mundo começou a fotografar no automático e não fossem aquelas “respostas” dos robôs fotográficos, talvez muitos desanimassem de seguir. Não teríamos esses bilhões de fotos diárias na internet, entretanto também teríamos perdido grandes nomes da fotografia atual. Não se pode negar.

Mas não preciso ser um usuário e fã incondicional de todo esse automatismo em tempo integral. O fato é que se o automático “resolve”, não preciso fazer. Se o robozão faz as contas, não preciso pensar.

Claro, o modo da câmera verde nas DSLR – e o padrão nos celulares em geral – não acerta tudo. Há de se lembrar que o robô não pensa (ainda) na cena como eu a quero. Ele usa um apanhado de hipóteses que se confirmam ou não segundo alguns indicativos. Mais ou menos como aquele passo a passo que fazemos quando não lembramos onde deixamos as chaves.

Perda das chaves,

#tentar local onde se pendura chaves, se não

#tentar criado mudo do quarto, se não

#tentar mesa da cozinha, se não

#olhe para a sua mão

#chaves!!!

E assim já achei algumas vezes minhas chaves.

Grosso modo, é isso. Um algoritmo cada vez mais complexo que tenta interpretar algo através de parâmetros matemáticos.

Porém, ainda não são capazes de dizerem-se qual melhor enquadramento para a cena à minha frente. Não são capazes de me dizer se quero aquela cena mais escura ou clara. Ainda continuam errando a cor do vestido da noiva mas, verdade seja dita, bem menos que antes. Com a inteligência artificial introduzida, inteligência essa que imita as redes neurais de nosso cérebro para “aprender” com a experiência, achando cada vez mais novas conexões de hipóteses e soluções, é possível que um dia a câmera acerte muito mais disso tudo.

É possível que a inteligência artificial qualquer hora se torne tão ou mais complexa que nossos cérebros.

É possível que um dia não precisemos mais ser artistas para fazer uma bela foto.

É possível que a (infeliz e já existente) pergunta “para que arte?”, se avolume.

É possível que um dia a inteligência artificial possa ler meu cérebro.

É possível que ela se decepcione comigo. Que na ânsia de encontrar alguém para dialogar e conversar para aprender mais sobre fotografia, encontre apenas um espaço vazio, pintado em cinza 18% com alguém (eu) dormindo num canto sem muita motivação para viver.

O dom de um Neanderthal

Recentemente me deparei com a notícia da descoberta que a primeira arte rupestre de que se tem notícia, que fica em uma caverna na Espanha, é mais antiga em 20.000 anos do que se pensava. Portanto, não pode ser atribuída ao homo sapiens, pois esse ainda não havia chegado à Europa naquela época. Isso significa que foi produzida por neandertais! Sim! Aquele nosso primo tosco, burro e sem sentimentos. Só que não.

A arte era o último bastião da supremacia humana. Ela era o indicativo de que o pensamento simbólico era uma capacidade exclusivamente nossa. Já havia sido descoberto nos últimos anos que neandertais eram capazes de rituais e enterravam seus mortos.

Na outra ponta da evolução, já faz alguns anos descobrimos que a diferença entre o DNA de um rato e do humano não chega a 10%. Entre macacos e humanos então, menos ainda. Somos quase gêmeos.

Acabou! O Rei está morto! Não há mais razão alguma para a pretensiosa superioridade de alguns.

Aposto que, tivessem neandertais contato com a máquina fotográfica e um pouco de instrução, seriam capazes de fazer umas fotos.

Se o pensamento simbólico já está circulando sobre a Terra há mais tempo que a nossa espécie, não há razão alguma para pensar que você não pode desenvolve-lo. O tal do “dom” não existe mais nem como pronome de tratamento, quiçá como espécie de escolha divina para determinar quem pode ou não desenvolver uma habilidade.

Fotografamos com aquilo nosso passado e nosso futuro ou a fantasia dele. Nossa “sala” se ampliou a partir do momento em que fomos capazes lidar abstratamente com essas duas perspectivas não presentes no aqui agora. Somos capazes de de ligar o passado ao futuro. Daí sai o mapa que orienta nossas vidas. Evidentemente, isso é uma construção cultural.

Criatividade, portanto, é nesse sentido sensibilidade. Precisamos parar e observar. Ser sensível como um filme ou sensor fotográfico. Deixar que a “luz” do mundo nos atinja e contar a esse mundo o que estamos vendo através da linguagem artística que escolhemos, a fotografia.

Como também diz Milton Guran, fotojornalista brasileiro, “O fotógrafo é aquele que vê (e mostra) o que ninguém vê. E se as pessoas virem, o fotógrafo é aquele que vê mais profundamente”. Permita-se estar nos lugares, completamente. Mestres em meditação falam, “se estiver lavando louça, só lave louça”. Eles querem dizer, deixe-se absorver por essa tarefa. Não pense em varrer a casa após a louça, não relembre o passado, não ouça música. Concentre-se no presente. Para nós fotógrafos, concentrar-se no ambiente, na cena, no mundo.

Ao passar por uma rua, experiencie passar pela rua e VEJA o que ninguém vê.

 

 

Fotografia é arte ou ciência?

A resposta para a pergunta acima tem um enfadonho “depende” caído no chão à frente.

Quando a fotografia surgiu, o movimento artístico ficou em rebuliço, a favor e contra. O famoso poeta Charles Baudelaire ficou possesso! Escreveu uma crônica sobre:

“Um deus vingador acolheu as súplicas desta multidão. Daguerre foi o seu Messias. E então ela diz a si mesma:

‘Visto que a fotografia nos dá todas as garantias desejáveis de exatidão (eles acreditam nisso, os insensatos), a arte é a fotografia.’

A partir desse momento, a sociedade imunda lançou-se como Narciso, na contemplação de sua imagem trivial no metal. Uma loucura, um fanatismo extraordinário, apoderou-se de todos esses adoradores do Sol.”

Quem faz a fotografia é a câmera – processo físico – e sua revelação antes dependia de um processo químico. Hoje acontece o mesmo, mudamos apenas o material sensível, que passou a ser eletrônico. Saímos da química e entramos na física elétrica.

Em frações de segundo algo que demorava meses nas mãos do pintor aparecia pelas mãos do fotógrafo. Ao pintor é requerido olhar e destreza técnica. E ao fotógrafo?

Olhar, certamente. Já cansamos de falar que a câmera sozinha nada faz. A parte da destreza é necessária? O mundo tá lá, “desenhado” já!

Existe evidentemente uma operação técnica. O domínio da máquina. Uma lógica matemática simples, mas uma lógica. E lógica me remete ao campo de exatas e não de humanas.

Há de se dizer que pelo menos um tanto da resistência à fotografia enquanto arte na época de seu surgimento pode ter sido (especulação minha) por conta que Louis Daguerre, “o Messias”, não era um artista. Era um homem de visão, sensibilidade sim, mas para os negócios. Me lembra outra famosa figura da história cheia de sensibilidade e tino para os negócios e sim, um apreciador da arte, porém não artista – Steve Jobs. Seu ecossistema na computação é o preferido dos artistas. Os softwares de produção e edição de muitas formas de arte, do desenho ao cinema, parecem fluir melhor naquilo que é produzido no sistema da maçã. Janelas versus maçãs à parte, o fato é que Steve Jobs sempre quis ser músico, tocar um instrumento. Seu famoso e bem sucedido software de produção musical, o GarageBand faz com que qualquer pessoa possa tocar um instrumento e produzir sua própria música a partir de uma ideia simples. Se isso te soa familiar, não é mera coincidência. No ramo da música também existem os puristas que sempre vão dizer, não importe o quanto se evolua nesse campo, que uma guitarra ou bateria gravada por um instrumento virtual, ou seja, aquele que não é físico e tocado à maneira antiga, nunca será igual ao som do real.

Alfred Stieglitz, renomado fotógrafo da primeira geração, preocupado com esses questionamentos funda o movimento pictorialismo. O negócio aqui era trazer para as fotos a tal arte que os artistas requisitavam. Como? Ora veja, MANIPULAÇÃO de negativos. Manipulação de imagens. Sim sim, isso existia desde muito antes do famoso Photoshop.

Mas será que fotografia para ser arte precisa de manipulação?

E o tal olhar? A partir do momento que ele existe, só virará arte se aplicado a determinados materiais como tinta ou barro?

Claro, não defendo aqui que o simples apertar de botão possa transformar qualquer coisa em arte assim como o simples pincelar de tintas na tela tampouco o será se quem o faz não souber fazê-lo. Qual, afinal, a linha tênue que separa a arte da ciência na fotografia?

A discussão é boa e uma coisa é certa, estamos num mundo de imagens. Inundados somos com milhões de fotos todos os dias e certamente nada de artístico há na maioria delas, entretanto leviandade seria dizer que não há em tantas outras. Se a arte é de um Michelangelo ou de um pintor de menor expressão, é algo absolutamente possível de se questionar. Mas há ou não arte?

Termino ousando relativizar Baudelaire sobre “as garantias de exatidão” que a fotografia nos dá. “Os insensatos acreditam nisso”. Baudelaire falava de quais insensatos? Dos que, fotografando ou não recebiam a nova arte de braços abertos ou dos que se empenhavam para descobrir os limites da mesma – como inclusive até hoje o fazem? Ao fotografar uma flor, será que de fato cheguei a uma exatidão, pensará aquele que reflete sua tarefa? Seria isso possível? Quantas maneiras haverão de fotografa-la? Existirá uma correta? Quem a fotografa melhor?

Nesse sentido, pessoalmente não enxergo o ofício do fotógrafo diferente de qualquer outro artista. A arte vem de dentro. Ou vamos categorizar a reflexão subjetiva de cada um pelo material com que cada um produz?

Bokeh

Por uma indicação assisti ao filme Bokeh, disponível no Netflix. Uma produção que teve sua realização através do kickstarter, famoso site de financiamento coletivo. A história que o filme conta me chamou a atenção por ser muito parecida com um dos melhores livros que já li, Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva. Oficialmente o filme não foi baseado na obra do brasileiro, informação que o próprio Rubens Paiva me confirmou via Twitter. Aliás, nem era de conhecimento dele. O livro é de 1986, o filme 2017.

Apesar do jargão fotográfico no nome, Bokeh é um filme que literalmente fala muito pouco em fotografia. Literariamente está repleto dela.

O personagem principal, em férias com a namorada na Islândia, fotografa tudo com uma Roilleflex. Indagado pela namorada se não era melhor uma máquina moderna, ele justifica a escolha por “não querer um computador mexendo em tudo” e revela que seu pai falava sempre sobre “capturar o momento”.

Porém, não é aí que Bokeh se torna grande. O filme é sobre como olhar o mundo. Como olhar o mesmo mundo a partir de perspectivas que estão em eterna mudança (devir). Quando não havia mais possibilidades de revelar seus filmes, de frente para um muro grafitado em que o desenho tem olhos bastante expressivos e o encara de frente, com a máquina prestes a fazer mais uma foto, o rapaz entende que não adianta colocar em negativo se não puder “capturar o momento”. A captura não é da máquina. A imagem tampouco. Ali parece ter se dado conta que se ele não pudesse ter um entendimento das coisas à sua volta, não faria sentido algum apontar o equipamento para a cena. Dali mesmo retirou o filme que havia na máquina e continuou a fotografar.

Pode ser interessante refletir por que continuou com a máquina em mãos, fazendo fotos.

André Kertész tem uma frase que provavelmente nos ajudará. Ele diz,

“A câmera é meu instrumento. Através dela dou uma razão a tudo o que me rodeia”.

É possível que o rapaz necessitasse da objetiva para enquadrar seus pensamentos.

Outro ponto a completar esse é que ele era racional ao extremo e sua namorada usava a religião como suporte para suas reflexões. O par razão/emoção se faz aqui presente. Outro par representado aqui é a pulsão de vida/pulsão de morte. Eros e Thanatos como se fala na psicanálise. Em sua razão desmedida, planos para continuar a transformação da vida. Na dúvida emotiva acerca do abandono de Deus, ela, a namorada, definha.

A partir daqui o que eu disser passa a ser spoiler e não é essa a intenção.

Fica aqui a indicação de um filme que retrata, sendo ele uma versão ou não do livro de Marcelo Rubens Paiva, como diferentes olhares para o mesmo nos leva a imagens completamente distintas daquilo que nos rodeia. A fotografia nem é a alma do filme, mas um tempero ou talvez o melhor gancho para se falar do olhar para a vida.

É possível que a discussão se estenda aos comentários, quando ficará decidido que quem quer bater o papo já tenha visto a película.