Destacando um assunto na foto

Não lembro se já escrevi sobre o frisson que o desfoque, famoso bokeh, tem causado atualmente na fotografia social. Me refiro, portanto aos ensaios e eventos. Mais aos ensaios.

É possível que sim, já tenha mencionado o tema antes, mas prefiro a preguiça de não voltar para nos dar a oportunidade de novas reflexões que só por ora brotam por baixo da minha careca.

Só para que fique claro, fazer um retrato de fundo desfocado é uma das melhores maneiras de dar destaque ao assunto. E eu acho bonito, mas não sou um obsessivo nessa busca por razões que já ficarão claras.

Lentes super claras, teleobjetivas e preço alto caso queira que as duas opções da frente conversem em um mesmo lugar, parecem ter se tornado a Meca na fotografia.

Mas, quero fazer um contraponto não técnico e sim reflexivo.

Se meu assunto o tempo todo está destacado, isso não o isola do meio em que escolheu para ser retratado? Posso pensar enquanto espectador de fotografias que é o meio em que ele vive ou gostaria de viver.

O quanto isso impacta na mensagem que eu quero passar naquele corpo de fotos que será formado e chamado de resultado final?

Eu não estou falando de reclamação de cliente. Entenda, não estou confabulando sobre fotografia comercial, mas sobre arte fotográfica. E arte remete à reflexão. Arte não existe fora de um meio ou contexto.

Pois continuemos.

Destacado é uma palavra ambígua. O lugar de destaque é um lugar onde se está só. Posso evidentemente falar em “grupo destacado” e isso significaria também que o mesmo grupo estaria isolado.

Penso em como conduzo um ensaio, sempre buscando uma integração total da cena. Os “atores”, as cores, o ambiente, as roupas e etc. Quem faz ensaio geralmente pensa essas coisas. Porém, quando gasto metade do ensaio destacando o assunto da cena super escolhida, metade desse trabalho foi embora. Isso falando em números absolutos, mas dentro do contexto e da história a ser contada, esse punhado de fotos pode fazer com que o clima tenha sido perdido de vez e no máximo o fotógrafo se aproxime de um editorial de moda. De onde aliás, sai muito da inspiração de poses e cenas dos fotógrafos ensaístas atuais.

Entretanto, na moda o que está a venda não é a vida da modelo e o mesmo já não pode ser dito ao ensaio. E se falo em vida, quero falar em integração, a menos que esteja tematizado algo muito bem bolado porque mesmo em caso de distopias, utiliza-se o cenário dos escombros e da desilusão ao redor para dar sentido à cena.

Tendo a certeza de não poder generalizar e colocar todos os fotógrafos, distâncias focais e aberturas de diafragma no mesmo saco, deixo aqui minha indagação.

Num mundo onde cada vez mais nos isolamos do Outro e do meio em que vivemos, deveríamos nós, artistas da imagem fotográfica, corroborar tão bem com esse isolamento?

Não seria um sutil ponto de consciência fazer exatamente o contrário? Integrar cada vez mais figura e fundo, forma e conteúdo?

Se você após gastar umas brisas na cara não concordar comigo, ok.

Mas se acabar concordando, tenho uma boa notícia para ti, você esvaziará menos o bolso na compra de uma lente, porém preencherá mais a cena de significados.

Sua foto ganhará profundidade. Certamente de campo, possivelmente de alma.

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