A pasteurização do olhar

Conversava ontem com uns alunos sobre o olhar fotográfico no ramo de eventos e nos ensaios. Já há algum tempo, esse mercado investe no que chamam de fotojornalismo. Em suma, o fotógrafo pede menos poses e entre brincadeiras, músicas ou, para usar palavras “científicas”, rapport, apossa-se de momentos de descontração. Um riso, um olhar, a expressão que capture a pessoa que está atrás da persona do “eu fotografado”. Foi muito bacana ver técnicas de um lugar específico da fotografia, frequentar outros. Ainda que de maneira adaptativa, mas tentava-se ser menos mecânico, mais natural.

Evidentemente, uns vão se destacando mais que outros e referências vão surgindo. Efeitos gráficos em pós-produção vão visando deixar o ambiente com cara de simples e aconchegante enquanto tons mornos e quentes vão te levando a sensação de aconchego.

As “cores de outono”, de algum outono, vieram para ficar. Elas causam essa sensação. Toda árvore passa a produzir tons de plátano caminhando para o inverno. Se você não faz ideia do que seja um plátano, está enganado. Plátano é aquela espécie de árvores cuja folha estampa a bandeira do Canadá e cuja folhagem no outono assume tons que vão do amarelo ao violeta. Até os cactos aqui da região do lagos do Rio de Janeiro andam assumindo essa coloração um tanto excêntrica para o clima tropical.

A estética é bonita e viciante. Logo que se puser a pensar sobre isso vais chegar numa encruzilhada já antes tratada por aqui, qual seja, por que a fotografia deveria ficar presa a uma suposta realidade. Eu geralmente falo disso quando o assunto é pós-produção, principalmente para aqueles mais puristas que acham que a foto deve retratar o “Real”. Não mudei de opinião. Não acho que podemos fotografar o Real e nem que deveríamos busca-lo insanamente, claro, em se tratando de eventos e ensaios.

Tente me entender, não estou neste momento questionando a validade do tratamento, mas sim do olhar – novamente.

No Brasil temos três profissionais que nos últimos dois anos ganharam a massa de fotógrafos com seus estilos, Américo Sperandio, Allan Elly e Robson Kunz. Quero frisar que eu admiro o trabalho deles e não tenho absolutamente NADA contra os mesmos. Pelo contrário, já até tentei estar num workshop do Américo há uns dois anos em Niterói, mas acabei não conseguindo ir. Todos os três têm canal no YouTube e ensinam algumas de suas técnicas. Todos os três fazem workshops. Todos os três são bem sucedidos como fotógrafos e professores, ou seja, têm muitos alunos.

O problema não reside neles, mas naqueles que tentam ser eles! Comercialmente deve ser ótimo para os três, artisticamente, desafiador.

Não estou colocando todo mundo no mesmo saco, mas me permito alguma generalização porque eu como professor acabo tendo contato com muito mais fotógrafos que teria se não fosse, pois meus alunos me trazem suas referências e eu quero conhecer.

Como dizia, ontem alunas minhas trouxeram várias referências da região em que moro, paramos para ver todas. Algumas gostei, outras não. Entretanto, TODAS eram quase clones do Américo Sperandio. Num determinado momento me dei conta de que elas não conheciam a obra do Américo e o apresentei para elas. Elas adoraram, mas ao mesmo tempo murcharam e se decepcionaram com as referências que trouxeram. Entenderam o quanto eles eram apenas uma cópia do mais famoso. Não havia como negar. Estava tudo lá, das expressões faciais, às poses, ao minimalismo no meio de uma sequência, às cores de outono em qualquer época do ano, tudo! Não sobrava nada autoral.

E aqui estamos discutindo sobre o que é referência e o que é cópia.

Muito natural é quando estamos começando, copiar coisas de nossos mestres. Os admiramos, os vemos como algo à alcançar, querer ser igual. Uma admiração paternal e até certo ponto saudável. A linguagem fotográfica que nos guiará por determinado momento é a de nossos mestres. Mas aquele que não traz seu mestre consigo e o coloca para conversar com outras referências dentro de sua obra, está apenas industrializando arte. E digo mais, é difícil imprimir seu olhar na fotografia. Possivelmente precisará de anos! Eu mesmo estou em busca do meu e dezenas de vezes me vejo tentando resultados parecidos com de meus mestres. Faço dessa escrita menos acusatória e mais analítica. Entretanto, nunca morre em mim a vontade de me diferenciar, fazer algo que tenha o sal daqueles que me inspiraram, mas que tenha sido cozido e preparado por mim. Para isso, vou buscando referências para além do mesmo estilo.

Passe 30 minutos no Instagram de um desses três grandes fotógrafos que citei e depois passe a visitar os fotógrafos de eventos que conhece e veja quantos estão apenas reproduzindo um modelo. Quando o fotógrafo não coloca algo novo no mercado, não produz demanda do cliente. Como vai querer que este aceite algo diferente se tudo que ele conhece são essas cenas? Estamos fazendo life style ou impondo um life style no ensaio dos outros como se todo mundo tivesse que ser retratado como a família do comercial de margarina?

O teu estilo precisa de você e enquanto você não voltar pra “casa” inebriado com o estilo dos grandes, mas consciente do arrebatamento que aquela arte te trouxe e assim transformar a EXPERIÊNCIA em algo seu, não passarás de uma máquina de fotocópias.

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